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Fazer perguntas sobre a história do corpo

  • Foto do escritor: Selma Bellini
    Selma Bellini
  • 3 de jun.
  • 2 min de leitura

Mesmo que o tema de uma análise não seja declaradamente questões com o corpo, é um corpo-sujeito que está lá contando a história. Contar a história de si é contar também a história do corpo que a carrega e que guarda marcas.


E é isso que Egana Djabbárova faz em seu romance “As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita”, que aborda memória familiar, traumas geracionais, imperativos culturais e dá voz a cenários de violência silenciadas. A história é contada por fragmentos narrativos, em capítulos que têm como títulos partes do corpo: sobrancelhas, olhos, cabelos, bocas, ombros...


A personagem principal de Egana coloca na escrita não só sua história familiar, mas também a de uma doença que impõe questionamentos sobre como é viver num corpo que a todo tempo se vê invadido, seja pelas normas culturais e familiares, seja pela doença e pelo tratamento.


O corpo da narradora é a resistência da história e, por meio das palavras, pode dizer e nomear violências e existir para além delas.


Há, ainda, o encontro com o cuidado. Num cenário de opressão patriarcal, há a felicidade de uma exceção, que é a marca de um avó, um homem sensível: “(...) me transmitiu o mais importante: o amor como a capacidade de ler os corpos dos outros (...)”.


Terminar o livro de Egana deixa um rastro de perguntas sobre o corpo que acabou de lê-lo. O que dizem minhas mãos, as costas de meu pai, os ombros da minha avó, os braços da minha mãe, o olhar do meu irmão? Egana nos deixa a vontade de fazer perguntas sobre a historia do nosso próprio corpo.


Sobre a autora: Egana Djabbárova nasceu em 1992, em Ecaterimburgo, na Rússia, em uma família de origem azerbaijana. Poeta, ensaísta, romancista e pesquisadora em literatura, é doutora em ciências filológicas. Cresceu no contexto da diáspora azerbaijana na Rússia ― experiência que marca profundamente sua escrita, desenvolvida no cruzamento entre experiência autobiográfica, investigação crítica e experimentação formal.

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