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Sem foco, exaustos e sem momentos de devaneio

  • Foto do escritor: Selma Bellini
    Selma Bellini
  • há 7 horas
  • 3 min de leitura

O brasileiro passa mais de 9 horas por dia na internet e são mais de 3 horas exclusivamente em redes sociais. Esses dados são da pesquisa Consumer Pulse e colocam o Brasil acima da média global. Esses dados não são isolados. O tempo de conexão do brasileiro se destaca em várias pesquisas. E veja que estamos falando do tempo médio. Cada um de nós facilmente conhece pessoas que ficam 4, 5, 6 horas por dia no Instagram ou Tiktok.


Um dos efeitos disso é sentido nas dificuldades de concentração quando é necessário ler um texto mais longo ou prestar atenção por mais tempo em alguma tarefa específica. As queixas de “minha memória está péssima” acompanham essa lógica. Afinal de contas, a atenção é parte fundamental do processo de memória.


Falar da nossa falta de foco, no entanto, não passa por falar exclusivamente do uso de redes sociais, embora elas sejam, de fato, uma das forças mais importantes por trás das queixas de dificuldade de atenção.


Em primeiro lugar, há as questões singulares de cada um e toda uma gama de motivos que podem causar as dificuldades de atenção.


E há, claro, o cenário em que vivemos. E é aí que entra a dica de “Foco Roubado”, do jornalista Johann Hari. Tenho ressalvas em relação a esse livro, mas deixo a dica porque há um mérito importante, que é o de questionar os motivos da dificuldade de foco sem cair na armadilha de eleger um único culpado. Por meio de entrevistas com especialistas e pesquisadores, o autor constrói um cenário complexo do que está “atacando” nosso foco e mapeia alguns motivos.


Eu destacaria entre os pontos que ele discute a necessidade do devaneio, da divagação mental. Pode parecer estranho falar disso quando o que está em pauta é a atenção, mas o ponto é que poder devanear está diretamente ligado à capacidade de prestar atenção, de alimentar curiosidade, pensar em coisas novas, aprender e poder produzir com foco. E na rapidez do mundo de hoje, pulando de tarefas em tarefas, consumindo informações “picadas”, vídeos curtos, exaurindo nossa mente, não sobra espaço para essa maravilhosa habilidade humana que é a divagação. Nem conseguimos focar e nem devanear, ficamos na superficialidade de tudo, sem pausa. E isso tem um custo.


Abaixo alguns outros pontos mapeados pelo jornalista:


- a ascensão e rápida adoção de tecnologias com designs trabalhados para aumentar tempo de uso, sem questionamentos éticos do que isso significa para atenção e saúde mental.

- o aumento da velocidade da informação (que se agravou c/redes sociais, mas não começou c/elas)

- a rapidez de mudança de tarefas (quantas horas de trabalho sustentado você tem por dia sem que algo te interrompa?)

- diminuição de leitura sustentada

- Stress e violência (causam hipervigilância e dificuldade de atenção).

- Alto consumo de alimentos industrializados

- Poluição e outros químicos (sim, isso também!)

- A simplificação e generalização de enfrentamento nos casos de TDAH

- Infância e da juventude cada vez mais confinada às telas.

- A ideia do lucro a qualquer custo que está por trás de vários dos fatores acima citados


Nosso corpo não evolui na velocidade das tecnologias e está sofrendo com tudo isso isso. Saber como funciona a atenção, entender seus limites e potenciais e aprender a cuidar do seu cérebro é fundamental, mas o grande mérito do livro é apresentar a dificuldade de foco da atualidade como um problema sistêmico e que exige soluções sistêmicas, não apenas individuais.


Sim, há coisas que cada um de nós pode fazer para se proteger um pouco e todos devemos tentar aprender como colocar alguns limites, mas o ponto é que isso tem limite e o problema é maior que isso. A necessidade de regulamentação das redes sociais é um exemplo, mas não é o único. Veja a lista acima. Há muito a ser feito do ponto de vista sistêmico.

Que a Meta tenha sido condenada recentemente pelo DESIGN viciante é um passo importantíssimo. Deixo aqui uma aspas do Tristan Harris, ex-Google e que se colocou a questionar tecnologias publicamente e que ilustra muito porque a regulamentação é necessária: "O modelo de negócios deles é tempo de tela, não tempo de vida".


“Foco roubado” pode ser uma boa leitura se você se vê checando o celular centenas de vezes por dia, se não consegue mais assistir um filme sem checar suas redes sociais, se tem dificuldade de prestar atenção até mesmo numa série. Ainda existe uma autonomia possível, mas isso passa por se educar sobre o cenário em que estamos vivendo, para saber o que você pode fazer, quais seus limites e se deseja se engajar em alguma luta coletiva que cobre mudanças sistêmicas.

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